domingo, 22 de agosto de 2010

Sete epitáfios para uma Dama Branca

Li recentemente O amor e outros objetos pontiagudos livro de contos do Marçal Aquino. Segue o um trecho do conto Sete epitáfios para uma Dama Branca intitulado Epitáfio V:

Nunca dei presentes a ela, nunca recebi nada. Não conheci a letra dela, nunca a vi escrevendo. Não sei se sua caligrafia era redonda ou inclinada, legível ou feia, ou se ela colocava bolinhas em lugar dos pingos nas letras. Eu nunca disse que a amava nem a ouvi dizer isso para mim. Nunca falamos em amor, de filhos, de amantes, de passado. Do outro. Fodíamos, apenas.
Nunca soube seu signo nem ela o meu. Ela não me falou sobre sua cor favorita ou sua cor predileta. Sua primeira vez. Ela não perguntou sobre a minha. Não sei se ela possuía todos os dentes. Nunca conversamos sobre religião, não sei se ela acreditava em Deus. Em reencarnação ou em horóscopo.

Não sei se ela gostava de gatos ou se pensou em colecionar selos. Nunca perguntei se ela se interessava por política, futebol ou mesmo se tinha o costume de ser masturbar. Não sei se ela cozinhava bem o prato de que gostava mais. O que achava da moda, ela jamais me falou. Curtia samba? E caipirinha? Como foi quando criança, ela não me contou. Qual seu número de sorte? Eu pagava pra saber se alguma vez aconteceu de ela olhar com desejo para outra mulher. O nome de seus pais, o que ela achava de homens com barba, das loiras, de armas e de tatuagens - são coisas que nunca vou saber.

Não descobri se em alguma ocasião ela passou fome na vida. Se teve uma tia epiléptica. O que achava dos pretos? E dos cavalos? Gostava de novelas? O que pensava de garotas que pedem a sujeitos que batam nelas na hora de trepar? Achava o que do dinheiro, essa mulher? Que número calçava? Tinha medo de baratas. Terá algum dia o pai espancado a mãe na frente dela (e, diante de seu protesto, mandado que calasse a boca pra não tomar uns sopapos também)? Será que, como eu, ela achava que a felicidade é um negócio que inventaram para enganar os pobres, os feios e os esperançosos? Não sei se ela teve um primo que vivia pedindo dinheiro emprestado.

Não sei se tomou drogas um dia ou se era bamba em matemática no tempo da escola. Se gostava de resolver as palavras cruzadas do jornal. Será que ela sabia jogar truco? Teve todas as doenças da infância? Tinha ideia de como é que os caras matam os cavalos para fazer mortadela no sul da Bahia? Foi assaltada alguma vez? Transou quando na verdade estava afim de dormir e esquecer? Nunca soube se ela viajou de trem ou de navio. Se teve vontade de matar alguém que um dia amou. Se cortou os cabelos só para agradar a algum homem. Se cortou o pé em caco de vidro quando mais nova. Se em algum momento humilhou alguém e se arrependeu depois. Se gostava de brócolis. Se pensou em sexo com animais. Se alguma noite perdeu o sono por causa de dívidas. Se pensou em fugir. Se lembrava dos sonhos depois que acordava. Se sonhava. Se tinha medo de doar sangue. Se sorriu para pessoas pensando em mandá-las à merda. Se bolou perversões com integrantes da família. Se sentiu saudade. Eu nunca soube o que essa mulher achava do papa. E de velhas que ainda usam laquê. Eu não sei onde ela estava quando a Seleção ganhou a Copa de 94. Se ela tomou algum porre de vinho. Terá ela fingido alguma vez que a coisa estava muito boa quando estava apenas morna? Compreendeu o significado da palavra "sacrifício" a tempo? Será que ela se orgulhou de algo de que deveria se envergonhar? Será que se lembrava da primeira vez que viu o mar? Do primeiro beijo? Será que ela se sentiu digna em alguma oportunidade? E suja? Eu nunca soube o que ela achava do salário-mínimo. Da ioga. Das surubas. E das coisas que assustam quando pensamos nelas.

De gente que tem medo de escuro. E de quem sabe que temos escuros dentro da gente. Eu não soube nada disso.

Apenas fodíamos. E era bom.
No entanto, eu sabia sua altura. Porque ela precisava ficar na ponta dos pés toda vez que nos beijávamos.
E sabia seu peso: ela me falou um dia, na cama, quando quis ficar por cima.

(Trecho extraído do livro 'O Amor e outros Objetos Pontiagudos' Marçal Aquino)

E você, sabe ou soube?

terça-feira, 8 de junho de 2010

Se perder...

Em 6 anos mudei drasticamente. Olho para trás e sinto saudades, mas não quero voltar. As dificuldades e responsabilidades aumentaram...me perdi, me encontrei, me encantei, desencantei e me perdi mais uma vez. Será se perder para se encontrar?
Não sei bem o que quero, sei do que gosto e tenho medo...mas, gosto de gostar.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Carnaval, Extravasa!

Carnaval é tudo, né gente!?
Época boa pra extravasar, liberar e jogar tudo pro ar!

Nossas queridas piriguetes adoram e isso me faz pensar, será o mundo dominado por elas?
Estão por todo lado. No metrô, na rua, no trabalho, orkut e até aquela sua amiga, lá no fundo é uma piriguetizinha.
Você identifica uma há quilometros de distância. Calças coladas, cheias de badulaques, taxinhas, sandálias de andaime, blusinhas mostrando as 'gordurinhas' salientes. Ah, e não sentem frio.

E não é só através da vestimenta, o comportamento diz muito. Frequentam principalmente, baladas, micaretas (tem a modinha também das Raves), seu assunto principal é aquele churrasco ou festa em que elas beberam todas e pegaram o cara mais gato, ou não ( só o fato de ter 'pegado' um cara, já foi um 'tudo').
E claro, a piriguete moderna posta tudo no orkut no dia seguinte, para que os outros possam ver como ela é feliz, tem muitos 'amigos' e aproveita a vida. Elas causam horrores, estão sempre de bom humor. Amam a música da moda. Quer ver uma piriguete feliz? é só tocar 'Sou praieiro, Sou guerreiro,Tô solteiro, Quero mais o quê?'

Carnaval é o mês delas, todas reunidas para cantarem e dançarem muito até o chão, ouvir muito a Claudinha Leite, Asa de Águia, Ivete e claro, Chiclete com Banana.


Fica minha singela homenagem...

Amo muito tudo isso!
Arrasem por mim! Kisses ;*

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Barbie

No passado ela havia sido morena de olhos castanhos, rechonchuda e sem peitos. Ainda antes do passado, sua primeira lembrança era um não-ser. Nem mesmo parecia que tinha um corpo. Acreditava-se feita apenas do material etéreo das almas.

Olhava-se no espelho e o que via lá lhe era estranho. Quando comia, não era seu nem o estômago nem as papilas gustativas que habitavam uma língua estrangeira. Absorvia-se na contemplação do xixi como se fosse o terceiro segredo de Fátima. E o prazer era como um filme que se passava numa tela que não era ela.

Acabara de completar sete anos quando a professora da primeira série, uma freira de ímpetos progressistas, reuniu os alunos ao final da aula para a brincadeira da fita. Eles eram amarrados pelos pulsos uns nos outros, num laço intrincado, e precisavam encontrar um meio de se desamarrar.

Ela não queria se desatar. Ficou lá, assistindo a outra criança debater-se na ânsia de libertar-se de um pulso que diziam ser o dela. Perderam o jogo, e o sino do colégio tocou anunciando a hora de partir.

A freira pegou uma tesoura e a aproximou para libertar as alunas que transformara em gêmeas siamesas. Ela viu as lâminas apertarem um pedaço gordo da carne do seu pulso e nada disse ou fez, hipnotizada pelo que ia acontecer. Assistiu-as cortarem a carne, e o sangue jorrar, e as crianças gritarem, e a freira berrar.

E ela apenas ali, observando, até que uma dor aguda lentamente alcançou seu cérebro. Ela havia sido cortada. O cordão havia sido cortado. Ela existia.

A partir daquele dia, toda noite, depois que os pais e os irmãos se recolhiam, fazia pequenos furos na carne. Começava pelo pescoço e ia descendo até a cavidade entre os dedos dos pés. Pressionava até a gota de sangue emergir. Cortada, sentia-se íntegra pela primeira vez. Finalmente, ela tinha um corpo. A imagem do espelho reunia-se a ela.

Encarnara-se.

Quando chamaram a mãe à escola, foi para elogiar que da noite para o dia suas notas melhoraram. Tornara-se uma aluna participativa. Tinha até se oferecido para ser a árvore da Amazônia de uma peça ecológica. Papel triste, que ninguém queria, porque ao final a árvore era abatida por um machado.

Por algum tempo ela pacificou-se naquele ritual secreto que a tornava dela mesma. Até que em uma noite particularmente quente, o irmão invadiu o banheiro com a Playboy na mão e a viu se furando diante do espelho. As lâmpadas se acenderam no quarto dos pais, a cena que até então pertencia apenas a ela foi iluminada com luzes que a ofuscavam. No dia seguinte foi submetida a uma longa série de médicos, especialistas. Seu ritual agora tinha o nome de uma psicopatologia e páginas e mais páginas de interpretações elaboradas.

As tesouras, facas e objetos cortantes foram banidos da casa, para desespero da empregada, que era obrigada a picar maminha com uma adaga de plástico. À noite agora ela tomava meia dúzia de remédios de cores diversas, antes de cair num sono em que não tinha nem corpo nem alma. Voltou a desencarnar-se, fechada no silêncio ao qual são condenadas as testemunhas de um corpo alheio. Ninguém estranhava porque já estava tudo explicado pela medicina.

Quando se tornou adulta, descobriu que poderia pagar uma cirurgia plástica em parcelas de até dez vezes sem juros. Sua estreia foi uma rinoplastia, seguida logo depois por uma blefaroplastia, intercalada por uma abdominoplastia. Seguiu pagando uma mentoplastia com cartão de crédito, até que na 13.ª intervenção se casou com o cirurgião plástico.

Desde então, ele determina as mudanças que deseja no corpo dela como um deus, cortando-a à imagem e semelhança de seus desejos. Como uma Eva de bisturi, ela está para sempre aquém e além do paraíso. Não só não foi feita de uma costela do homem, mas até mesmo duas de suas próprias costelas foram arrancadas para definir melhor o abdômen. Contemplada em seu mais poderoso desejo pelo homem que escolheu, ela é feliz.

Ainda que se encontrem mais na mesa cirúrgica que na cama, o deles é um casamento bem-sucedido como poucos. Quem os conhece sabe que vivem em serena rotina. Se existem almas gêmeas, eles as têm. Ao completar bodas de prata, o marido a presenteou com a quinquagésima operação. Desde então, os olhos com que se reconhece no espelho são orientais.

Ao que tudo indica, ela para sempre deixou de ser pária. Está perfeitamente integrada não só ao corpo mutante, mas ao seu tempo. Os pais e irmãos mal podem acreditar que aquela menina demente, que se autoflagelava no banheiro, transformou-se na mulher bem casada e eternamente jovem que os recebe com uma boca sorridente e cada vez mais carnuda em jantares sofisticados.

Mesmo quando a encontram estampada nas páginas de Caras, cada vez mais semelhante a uma das Demoiselles D’Avignon de Pablo Picasso, não passaria pela cabeça de ninguém considerá-la estranha. Não é a única a ter um olho escorrendo pela bochecha e o outro beirando a testa.

Até hoje, ninguém compreendeu que Barbie não dá a mínima para a estética. O que deseja são as cicatrizes.

Texto muito foda da Eliane Brum. Extraído do Vida Breve.